Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2006

empty tummy

ontem, tinha eu acabado de estacionar e ainda dentro do carro a falar ao telemovel, apareceu-me um homezito, cabelo à Felizberto Desgraço, sacos plásticos na mão e toda uma postura de desgraçado. e começou, gentilmente a cravar-me. o meu telefonema não devia ser interrompido nem pelo fim do mundo, pelo que o home lá teve que esperar um pouco...

quando saio do carro estava à espera da conversa de arrumador. ele surpreendeu-me: "o senhor empresta-me um euro?". eu sabia o dinheiro que tinha no bolso: uma solitária moeda de 1 €uro. e de notas tb não estava grande coisa, mas também não lhe ia dar uma nota... já estava eu a dizer que também estava fodido de pasta, quando ele me diz, e monologo até ao fim que eu não consegui dizer mais nada:
"é para comer, estou com uma larica do caraças. (apontando para a barriga) mas isto é a modos de um empréstimo(ao que, claro, eu solto uma sonora gargalhada), quando o senhor me vir por aí pode-me pedir o dinheiro que eu, se tiver, pago-lhe."

não preciso de dizer que ele me tocou no ponto fraco (a barriga vazia) e lá lhe dei o €uro, mas, de dedo em riste e com ar de mamã, também a recomendação: "Mas vá mesmo comer qualquer coisinha ou eu fico mesmo fodido!".

depois disto fiquei a lembrar-me duma estória do Zé Carioca, que não vou contar, e de outra, que vou contar.

eu e ele tinhamos acabado de entrar: eu na Universidade de Coimbra e ele na heroína.
e então ia eu todo caloiro a descer a avenida Sá da Bandeira quando ele me veio melgar: "eh, pá, dá lá 100 paus e 100 paus e 100 paus (ad infinitum, ad eternun) e 100 paus, é para comer(lol)". lembrei-me daquela cena de leva-los a comer, como um amigo meu que pagou um bilhete de comboio a um gajo que pedia para o bilhete. mesmo que não quisesse ir já tinha bilhete...
fiquei naquela: "ou o gajo chuta os meus 100 paus ou ganha um pasteleiro qualquer e a barriga dele, já que os meus 100 paus já eram...". optei por que ganhasse o pasteleiro e a barriga dele. "vamos ali que eu pago-te um bolo".

o gajo ficou semi... por um lado o vício não era satisfeito. mas como ele devia ter mesmo a barriga a dar horas... quando chegamos à pastelaria ele pôs-se a olhar para os bolos de aniversário: "deves estar a gozar comigo, não? comes um pastel e é se queres..."
mesmo assim escolheu o pastel maior que lá estava, que me ficou por pouco mais de 100 paus.

depois deste dia fico sempre na dúvida: ponho o gajo a comer e ainda pago uma fortuna ou dou lá o troco ao gajo e ele que o chute se quiser?

ah, porra, pode-se apanhar uma seca até ao tasco mais próximo, mas ter gente com fome é muito, muito mau!
publicado por loislois69 às 11:59

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7 comentários:
De Bartleby a 12 de Janeiro de 2006 às 15:42
Vocês são boa gente (e digo isto sem ironia)! Volta e meia também dou dinheiro a velhotes. Crianças e jovens nunca. Mas às vezes quando me estendem a mão lembro-me de uma história que um tio me contava de um tipo que, quando lhe estediam a mão, se apressava a cumprimentar o mendigo. - Tá bom? (só para desopilar!!!)

Grande post men... as usual!
De ana a 11 de Janeiro de 2006 às 23:18
Sigo o princípio de dar comida e não dinheiro.
E de cada vez que o faço, sinto-me corar de vergonha, no meu íntimo.
No fundo, não estamos a resolver, nem a contribuir para...
Chego a pensar muitas vezes que, ao dar algo, nestes casos, estamos a tentar aliviar a nossa consciência e não o mal alheio. Contudo, acredito que todos o fazemos com boa intenção.
De gaja a 11 de Janeiro de 2006 às 19:17
Isso já me aconteceu com uma barra de chocolate à saída de um supermercado... Dei a dita barra a uma criança com ar esfomeado que estava a pedir; quando fui arrumar o carrinho deparei-me com uma família inteira, cada um a comer o seu centímetro quadrado de chocolate. Parte mesmo o coração. Eu opto sempre por dar comida mas às vezes não pode ser. Quando não há café ou supermercado aberto nas redondezas não dou.
De womanonceabird a 11 de Janeiro de 2006 às 14:38
Propósito, como é óbvio...
De Woman Once a Bird a 11 de Janeiro de 2006 às 14:37
Dar de comer, pois claro. E muito a propóstio, também tive uma (de chorar) em Coimbra. No Stª Cruz, uma miudita (7/8 anos) vem pedir-me dinheiro para comer; levo-a ao balcão e digo-lhe para escolher o bolo que quisesse (que dinheiro não dou) e a miúda escolhe um dos maiores, com creme. Pago o bolo, e volto para a esplanada, seguindo a miudita com o olhar. Ela sai do café sem dar dentada no bolo. Vai até ao BES (que fica ali na esquina) e senta-se ao pé de um puto (aí de uns 5 anos) e começa a partir o bolo ao meio. Partiu ela o bolo e a mim partiu-se-me o coração. Levantei-me e lá fui ter com eles, e trouxe o miúdo para escolher o bolo dele. Mas no meio disto fica a má sensação. De que podíamos fazer mais e não fazemos.
De Andesman a 11 de Janeiro de 2006 às 14:27
Quando me falam que o problema é a barriga, até me dói a minha, eu que felizmente nunca passei fome. Mas gosto de confirmar, não gosto de enfiar o urso.
De fil a 11 de Janeiro de 2006 às 12:33
Dá de comer.
Pelo menos é oque eu faço sempre, mesmo que isso me valha umas valentes caralhadas, como já valeu, quando uma senhora me pedui dinheiro (tambem para comer), e eu lhe ofreci uma ida até o tasco mais proximo.
_vamos até ao café, disse na minha santa ignorância.
_Vá para o caralho! Respondeu o faminto ser.
Pimbas! mai nada.
Moral da história ... eu e o meu insulto fomos tomar o pequeno almoço.

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